O filme Titanic é sobre o Titanic, mas não é realmente sobre o Titanic.
As Aventuras de Pi é sobre um rapaz em um barco com um tigre, mas não é realmente sobre um rapaz em um barco com um tigre.
A série Jogos Vorazes é sobre jovens lutando uns contra os outros até a morte por diversão, mas não é realmente sobre jovens lutando uns contra os outros até a morte por diversão.
A Revolução dos Bichos é sobre animais administrando uma fazenda por conta própria, mas não é realmente sobre animais administrando uma fazenda por conta própria.
Às vezes, o significado mais óbvio de um enredo é, ao mesmo tempo, o significado certo e o errado. Se você ler O Peregrino e terminar apenas com uma história bonita (embora estranha) sobre um jovem a caminho de uma cidade distante, ou se ler O Leão, a Feiticeira e o Guarda-Roupa e enxergar apenas as aventuras de quatro crianças que foram parar em uma terra fantástica, terá perdido o maior — e mais importante — sentido de ambas as histórias.
Da mesma forma, se lermos o Salmo 1 pensando apenas em nós mesmas, entenderemos parte do seu significado, mas perderemos de vista uma dimensão menos óbvia — e de importância fundamental — do que ele nos ensina.
Não é uma lista
Até pouco tempo atrás, eu pensava no Salmo 1 como uma lista poética que eu podia ticar:
Não andar no conselho dos ímpios? Tique.
Não se deter no caminho dos pecadores? Tique.
Não se assentar na roda dos escarnecedores? Tique.
Ter prazer na lei do SENHOR? Tique.
Certo. Se eu for sincera, não sigo nenhuma dessas instruções à risca. Nem de longe. Meus tiques estão certamente escritos a lápis. Mas você captou a ideia. Muitas vezes, tratamos o Salmo 1 como uma lista de virtudes que devemos adotar (vv. 1–3), acompanhado por consequências assustadoras — o famoso “caso contrário” — para quem falha ao fazê-lo (vv. 4–6).
No entanto, essa interpretação reduz este precioso salmo a uma liturgia de legalismo.
Mais do que uma lista para ticarmos, o Salmo 1 é um belo retrato do único Homem verdadeiramente bem-aventurado: o próprio Cristo. Compreender este salmo pelas lentes do Salvador acrescenta uma profundidade mais rica e completa a uma passagem das Escrituras que já amamos.
Um retrato de Cristo
O Salmo 1 começa pintando o retrato da pessoa “bem-aventurada” ou “feliz”. O nosso linguajar moderno não faz justiça a esse termo. Podemos imaginar uma pessoa feliz como alguém animado e cheio de energia o tempo todo, com um sorriso estampado no rosto. Esse tipo de felicidade parece artificial e superficial. Ou podemos pensar em “bem-aventurado” em termos da tendência #blessed (#abençoado) de alguns anos atrás, quando as pessoas marcavam a hashtag em tudo, desde o boletim escolar perfeito dos filhos até a bebida chique do Starbucks e a reforma da cozinha. Essa versão de “bem-aventurado” limita o termo e parece não deixar espaço para o sofrimento — muito menos para alguém conhecido como o “homem de dores”.
No entanto, o termo bíblico “bem-aventurado” carrega muito mais significado do que tudo isso. A palavra se refere à ideia da “vida plena” ou da “vida invejável”. Mas, na economia de Deus, essa vida não é alcançada por meio de mansões, modelos de passarela ou milhões de reais. Pelo contrário, ela é alcançada por meio de uma vida vivida segundo os valores do Reino — um modelo invertido apresentado no Salmo 1 (entre outros lugares) e perfeitamente vivido pelo próprio Jesus Cristo.
Cuidado com as companhias
As pessoas com quem Jesus convivia podem nos deixar perplexas. Ele jantava com pecadores, comia com cobradores de impostos, aproximava-se de leprosos e repetidamente fazia inimigos entre a elite religiosa. À primeira vista, isso parece contradizer o que o Salmo 1 nos orienta a fazer:
Bem-aventurado é aquele que não anda
no conselho dos ímpios,
não se detém no caminho dos pecadores
nem se assenta na roda dos escarnecedores. (v. 1)
Embora Jesus frequentemente se aproximasse de pessoas pecadoras, Ele jamais comprometeu a verdade. Sempre como o Mestre, Cristo confrontava e corrigia o pensamento mundano. Foi o que fez com a mulher junto ao poço (João 4), com Zaqueu (Lc 19.1–10) e com Mateus, o cobrador de impostos (Mc 2.14). O próprio Jesus admitiu que não veio chamar os “justos, e sim pecadores, ao arrependimento” (Lc 5.32). Portanto, embora Ele tenha interagido com pessoas ímpias — como o único Homem justo em um mundo cheio de pecadores, dificilmente poderia evitar isso —, jamais Se permitiu influenciar pela sabedoria ou filosofia dos tempos.
Dedicado à Palavra
João 1 nos diz que Jesus é a Palavra, estabelecendo uma profunda conexão entre o Filho de Deus e as Escrituras. Mas essa ligação não para aí. Ao longo dos Evangelhos, Jesus demonstra uma dedicação inabalável à Palavra escrita de Deus.
Vemos isso aos Seus doze anos, sentado entre os mestres no templo, ouvindo, fazendo perguntas e deixando todos maravilhados com o Seu entendimento (Lc 2.41–47).
Quando foi tentado por Satanás após Seu batismo e um longo período de jejum, Jesus responde a cada tentação citando a Palavra, chegando a dizer a Satanás que o ser humano não vive somente de pão, mas de toda palavra que procede da boca de Deus (Mt 4.1–11).
Quando os escribas e fariseus exigiram um sinal de Sua divindade, Jesus, em vez de realizar um milagre, apontou para a história de Jonas e o grande peixe (Mt 12.38–42).
Depois da Sua ressurreição, o Salvador ressurreto caminha com dois discípulos a caminho de Emaús e interpreta todo o Antigo Testamento, mostrando-lhes como Ele cumpre tudo o que nele estava escrito (Lc 24.13–27).
Está claro que Jesus tinha prazer na Palavra, meditava nela, empunhava-a para frustrar as mentiras do inimigo, recorria a ela quando era questionado pelos fariseus e dela tirava ensinamentos para ajudar os Seus seguidores a compreender os acontecimentos do seu tempo.
Onde nós entramos
Então, se o Salmo 1 fala realmente de Jesus, o perfeito “Homem bem-aventurado”, você talvez esteja se perguntando exatamente onde você entra nessa equação.
Essa é a parte mais linda.
Porque o Salmo 1 descreve o Salvador, ele também me descreve — e descreve você, se é seguidora de Cristo. A doutrina da união com Cristo nos ensina que, por meio do Evangelho, a justiça de Cristo se tornou nossa (2Co 5.21). Em Cristo, o nosso velho eu foi crucificado (Gl 2.20), e nos tornamos criaturas novinhas em folha (2Co 5.17). Como é essa nova criatura? Poderíamos recorrer a muitas passagens do Novo Testamento para responder a essa pergunta, mas também podemos olhar para o Salmo 1.
Porque estou unida a Cristo, a Sua devoção à verdade e a Sua aversão ao mundanismo passam a ser minhas também (Sl 1.1). Posso andar entre pecadores, escarnecedores e ímpios sem me deter para ouvir o seu discurso em favor da sabedoria deste mundo.
Em Cristo, a Sua Palavra se torna o meu prazer (Sl 1.2). Os olhos do meu coração são abertos para a “iluminação do conhecimento da glória de Deus, na face de Jesus Cristo” (2Co 4.6). Começo a compreender os ricos tesouros da Palavra e posso dizer com o salmista que a Sua Palavra é mais doce para mim do que o mais puro mel (Sl 119.103).
Em Cristo, estou arraigada, alicerçada e segura (Sl 1.3). Estou amarrada à própria Videira e posso dar muito fruto à medida que permaneço nele (Jo 15.4–5). Já não preciso temer quando vierem as dificuldades, porque as minhas folhas permanecerão verdes, e o meu fruto se tornará cada vez mais forte, doce e maduro (Jr 17.7–8). Estou “enraizada e edificada nele, e confirmada na fé” (Cl 2.7).
Por fim, em Cristo, descobrimos o que é a verdadeira prosperidade. Os nossos afetos estão voltados para as coisas do alto (Cl 3.2), os nossos olhos estão fixos no Autor e Consumador da nossa fé (Hb 12.2), e nos empenhamos em ajuntar tesouros não aqui na terra, onde estão sujeitos à corrupção, à deterioração e ao roubo, mas no céu, onde colheremos recompensa eterna (Mt 6.19–21).
O Salmo 1 é sobre você, mas não é realmente sobre você. Em primeiro lugar, ele é sobre o Salvador. E, ao revelá-Lo, revela a nós uma vida bela, alinhada com os valores do Reino — uma vida que nos pertence porque estamos unidas a Cristo.
Clique aqui para ler o original em inglês.