Durante o período em que trabalhei como professora em um hospital, quando um aluno começava a receber cuidados paliativos, a equipe colocava na porta do quarto uma imagem de um coração partido. Era um sinal para a equipe médica e para aqueles que passavam por ali de que a família estava enfrentando o luto e precisava de um nível diferente de respeito e cuidado.

Na primeira vez em que entrei em um quarto marcado com um coração partido, senti como se mal conseguisse respirar sob o peso do que deveria ou não deveria ser dito. Eu ainda não sabia que poucas palavras seriam necessárias. Entrei no quarto, abracei a avó com força e apertei a mão da menina. Enquanto as máquinas apitavam ao seu lado, lembrei-me de todas as tardes que havíamos passado juntas.

A maioria das nossas aulas havia sido interrompida pela equipe médica — os médicos responsáveis, os residentes e os estudantes que os acompanhavam. A minha aluna e eu desenvolvemos uma espécie de código para aqueles momentos. Ela acenava “sim” com a cabeça se quisesse que eu permanecesse no quarto enquanto conversavam com ela e, quando algum dos residentes mais novos fazia uma pergunta insensível ou um comentário que não caia bem, ela lançava um olhar discreto na minha direção. Eu conseguia perceber que ela avaliava a maneira como eles tratavam o paciente com a severidade de uma crítica experiente.

Na maioria das vezes, eles eram reprovados.

Quando adolescente, como paciente, também ouvi a minha cota de comentários feitos por profissionais bem-intencionados. Eu sabia como era ser objeto de discussão, em vez de ser tratada como alguém a quem se dirigiam diretamente, e sabia como era ter as partes mais dolorosas da sua vida reduzidas a uma anotação de prontuário. Eu sabia como um comentário impensado podia ficar com você muito depois de uma consulta terminar. Como uma jovem professora, eu ainda tinha muito a aprender sobre como conduzir aquelas conversas do outro lado: resistindo à tentação de oferecer respostas fáceis, evitando comentários descuidados e me contendo para não preencher o silêncio com palavras que trouxessem mais conforto a mim do que à pessoa que estava sofrendo.

Às vezes, alguém entrava no quarto da minha aluna com graça e sabedoria, exemplificando como era amar alguém que enfrentava camada sobre camada de luto e sofrimento. Mas, com o tempo, percebi que as interações negativas também eram cheias de ensinamentos. Algumas vezes, uma demonstração do que não fazer pode nos ser tão útil quanto saber o que devemos fazer.

O livro de Jó nos oferece essa mesma perspectiva. Os amigos de Jó não foram até ele com a intenção de feri-lo; foram consolar um homem que havia perdido quase tudo. No entanto, em algum momento, entre o sofrimento dele e as explicações que eles ofereciam, acabaram fazendo mais mal do que bem.

As conversas que ocupam os capítulos centrais do livro de Jó são praticamente um manual de como partir o coração de um amigo em sofrimento. Ao estudarmos os erros desses amigos, podemos aprender a como não seguir o exemplo deles e, em vez disso, aprender a responder com a humildade e a compaixão de que os nossos amigos sofredores precisam.

Anatomia de um consolador fracassado

Costumamos nos sentir mais à vontade com o início e o fim do livro de Jó. É muito melhor voltar às falas de Deus e pular os argumentos agressivos dos amigos dele. A linguagem poética deles pode ser confusa, e os seus raciocínios muitas vezes parecem tediosos ou até mesmo desconfortáveis. No entanto, se estivermos dispostas a nos debruçarmos sobre essas páginas, descobriremos que somos capazes de cometer os mesmos erros. As conversas entre eles revelam como até mesmo amigos bem-intencionados podem tornar a dor de outra pessoa ainda mais difícil de suportar.

Como ferir ainda mais o coração de um amigo em sofrimento

1. Tente resolver o problema imediatamente.

Quando os amigos de Jó souberam de tudo o que havia acontecido com ele, “cada um saiu de onde vivia. . . e os três foram juntos consolá-lo e animá-lo” (Jó 2.11, NVT). Embora tivessem sido informados sobre a sua adversidade, nada poderia tê-los preparado para a realidade do que encontrariam:

Quando viram Jó de longe, mal o reconheceram. Choraram alto, rasgaram seus mantos e jogaram terra ao ar, sobre a cabeça. Depois, sentaram-se no chão com ele durante sete dias e sete noites. Não disseram nada, pois viram que o sofrimento de Jó era grande demais. (Job 2:12–13)

Embora as respostas que dariam mais tarde acabariam aumentando a dor de Jó, a sua demonstração inicial de amor foi genuína. Quando chegaram, choraram. “Em nenhum momento do livro Jó chorou por si mesmo; talvez já tivesse ultrapassado esse ponto em seu luto.”¹ Mas os seus amigos se comoveram a ponto de derramar lágrimas diante do seu sofrimento. “Sentaram-se no chão”, num gesto de humildade e de identificação com a sua dor.

O fato de terem permanecido em silêncio é impressionante. Quando nos deparamos com o sofrimento de alguém, muitas vezes sentimos um impulso imediato de tentar resolvê-lo. Quando um vizinho compartilha um diagnóstico devastador, começamos a listar opções de tratamentos que ajudaram outras pessoas. Quando uma viúva enlutada se abre sobre a sua solidão, corremos para sugerir grupos de apoio, livros e os próximos passos práticos. Quando alguém confessa uma dificuldade, começamos a elaborar um plano antes mesmo que ela termine de falar.

Os amigos de Jó “sentaram-se no chão com ele”. Temos a tendência de recorrer rapidamente a soluções porque isso nos faz sentir úteis. Porém, uma amiga em sofrimento raramente está nos pedindo para resolvermos a sua dor. Na maioria das vezes, ela está nos pedindo que compartilhemos o seu fardo — que fiquemos com ela no quarto do hospital enquanto aguardamos os resultados dos exames, ou que nos sentemos ao seu lado diante da cômoda do filho enquanto ela empacota as roupinhas que o seu bebê nunca chegou a usar.

O desejo de ajudar costuma ser sincero, e tentar resolver um problema é certamente menos desconfortável do que encarar uma dor que não podemos consertar. Mas o simples ato de estar presente com os nossos amigos em sofrimento é uma das maneiras de refletirmos o coração do Deus que vem ao nosso encontro. Em Isaías 43.2, o Senhor disse: “Quando você passar pelas águas, eu estarei com você”. No Salmo 23, Davi orou: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal nenhum, porque tu estás comigo” (v. 4).

A Sua presença é uma promessa de que Ele jamais nos deixará, e a nossa proximidade física a amigos que estão sofrendo pode servir como um lembrete concreto dessa esperança. 

2. Pregue a verdade sem sabedoria.

Muitos observam que, se a história dos amigos de Jó tivesse terminado no capítulo 2, o trio seria lembrado como heróis, e não como exemplos do que não fazer. Ao final do capítulo 2, lemos: “Ninguém lhe disse uma só palavra, pois viam que a dor era muito grande” (v. 13). Infelizmente, eles não permaneceram em silêncio. Alguns capítulos depois, Jó diria: “Quem dera vocês ficassem completamente calados! Vocês poderiam passar por sábios!” (Jó 13.5).

Apesar de todo o conhecimento que tinham dos princípios bíblicos, os amigos não contavam com a perspectiva que nós recebemos em Jó 1–2. Eles não sabiam que o próprio Deus havia validado o caráter de Jó (Jó 1.8), nem compreendiam que o seu sofrimento não era uma punição pelo pecado, mas parte de um propósito que estava além do entendimento deles.

Muitas de suas afirmações continham elementos de verdade: as pessoas colhem aquilo que semeiam (Jó 4.7–8). Ninguém é perfeitamente justo diante de Deus (Jó 25.4–6). Deus, de fato, disciplina os seus (Jó 5.17–18). O problema nem sempre estava na teologia deles, mas na maneira como a aplicavam. Eles aplicavam a verdade de maneira equivocada, porque a apresentavam sem sabedoria, graça ou verdadeiro conhecimento da situação de Jó.

Assim como os amigos de Jó, às vezes tomamos princípios que, de modo geral, são verdadeiros e os usamos para explicar as circunstâncias específicas da vida de outra pessoa:

  • Se uma amiga está sofrendo por estar solteira por mais tempo do que esperava, sugerimos que isso esteja acontecendo porque Deus está usando esse período para fazer crescer a sua fé no tempo dele.
  • Se uma colega de trabalho perde o emprego, ficamos nos perguntando se talvez seja porque ela estava apegada demais à sua carreira.
  • Se uma mulher da igreja enfrenta decepções seguidas, presumimos que Deus esteja fechando portas porque os seus desejos não estão alinhados com a vontade dele.

Quando confundimos aquilo que pode ser verdade com aquilo que é verdade, corremos o risco de falar falsamente não apenas sobre a amiga que está sofrendo, mas também sobre Deus. Como Jó perguntou mais tarde: “Como, então, vocês querem me consolar com palavras vazias? Nas respostas de vocês só há fasildade” (Jó 21.34). A avaliação de Deus foi ainda mais contundente: “A minha ira se acendeu contra você e contra os seus dois amigos, porque vocês não falaram a meu respeito o que é reto, como o meu servo Jó falou” (Jó 42.7).

A verdadeira sabedoria não está em oferecer uma explicação rápida para cada dificuldade nem em reduzir Deus a uma fórmula. Em vez de nos apressarmos a interpretar os propósitos dele quando uma amiga sofre, devemos ser prontas para ouvir e tardias para falar, sinceras em nossa compaixão, generosas em amor e estarmos dispostas a confiar que as razões de Deus — embora sejam sempre boas — podem estar além da nossa compreensão humana.

3. Esqueça o fundamento da misericórdia de Deus. 

A aspereza dos amigos de Jó vinha da maneira como eles enxergavam a Deus. Para eles, Ele era, acima de tudo, um juiz que distribuía consequências e, em seu esforço para defender a justiça de Deus, perderam de vista a Sua misericórdia. Quando o autor do livro de Tiago reflete sobre a história de Jó, ele destaca um atributo marcante de Deus: 

Eis que consideramos felizes os que foram perseverantes. Vocês ouviram a respeito da paciência de Jó e sabem como o Senhor fez com que tudo acabasse bem; porque o Senhor é cheio de misericórdia e compaixão. (Tiago 5.11)

A visão que Jó tem do Senhor muda ao longo do livro. Ele oscila entre a dúvida e a fé — como seria de esperar de um homem que estava “vivenciando o trauma emocional de perder dez filhos em uma única catástrofe e sofrendo com uma enfermidade física horrenda, chocante e dolorosa”².

Ainda assim, mesmo em meio ao profundo desespero, lampejos de esperança atravessam a escuridão. Jó anseia por um defensor (Jó 16.19–21) e expressa a sua confiança de que o seu Redentor vive (Jó 19.25–27). Ele se apega à esperança de que Deus o ouvirá e fará justiça em seu favor, buscando repetidamente por misericórdia.

Os seus amigos, porém, raramente o acompanham nesse ponto. Se queremos consolar bem, não devemos apenas chorar com os que choram, mas também nos alegrar com os que se alegram (Rm 12.15). Quando uma amiga reconhece a bondade de Deus em meio ao luto, expressa esperança em meio à decepção ou se apega às promessas de Deus em meio às lágrimas, devemos celebrar essas evidências da graça e afirmar que Ele continua sendo quem sempre foi. O mesmo Deus que governa todas as coisas ouve o clamor do Seu povo, e nenhum sofrimento, perda ou tragédia jamais poderá separá-la do Seu amor.

Esperança para consoladores imperfeitos

Depois que o Senhor restaurou a prosperidade de Jó, Jó 42.11 registra que: “Então vieram a ele todos os seus irmãos, todas as suas irmãs e todos os que o haviam conhecido antes, e comeram com ele em sua casa. E se condoeram dele, e o consolaram por todo o mal que o Senhor tinha enviado sobre ele”.

Consolo e compaixão — aquilo que ele havia recebido pela primeira vez em Jó 2 — ainda eram necessários nessa cena final. Apesar de toda a restauração, Jó havia sofrido uma perda profunda com a morte de seus filhos. Quem poderia culpá-lo se, falando metaforicamente, ele mantivesse nas janelas da sua casa o símbolo de um coração partido?

Mesmo que o luto continuasse presente, o Deus que havia Se revelado a Jó continuava agindo em seu coração. O livro termina com Jó orando por seus amigos (Jó 42.10), justamente os homens que haviam aumentado a sua dor. O homem que havia sofrido tão profundamente tornou-se instrumento de misericórdia para aqueles que o haviam ferido. 

Embora a graça pareça estar ausente nos capítulos centrais de Jó, ela volta a aparecer nas páginas finais do livro. Essa é uma boa notícia não apenas para os que sofrem, mas também para amigas como nós — aquelas que se arrependem de comentários que fizeram no passado e que ainda estão aprendendo o que significa amar bem. O Senhor também é misericordioso conosco, ensinando-nos, por meio dos erros dos amigos de Jó e dos nossos próprios erros, a nos tornarmos companheiras mais sábias, mais gentis e mais compassivas para aqueles que estão sofrendo.

 

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1 ALDEN, Robert L. Job. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993. v. 11. (The New American Commentary), p. 70. 

2 ALDEN, Robert L. Job. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1993. v. 11. (The New American Commentary), p. 186.

Sobre o Autor

Katie Laitkep

Katie trabalhava como professora hospitalar quando Deus a chamou para se juntar ao Revive Our Hearts como escritora da equipe. Ela atua remotamente de Houston, Texas, onde Deus a sustenta por meio de praias de água salgada, das Escrituras e de sua igreja local.