“Sinto muito. Não podemos fazer isso aqui. Você não viu as placas?” Eu mal podia acreditar no que estava ouvindo. Depois de uma hora e meia esperando, finalmente tinham chamado o meu número — setenta e três, aliás — e eu achei que poderia enfim fazer o que tinha ido até ali para resolver. Eu e os meus filhos havíamos dirigido por trinta minutos até o DMV (o órgão de trânsito dos Estados Unidos) mais próximo da nossa casa (convenientemente aberto apenas dois dias por semana) para transferir para o nosso novo estado o título de propriedade do nosso reboque para carro — uma das poucas coisas que não podem ser feitas pela internet.
Então colocamos tudo no carro e fizemos o que eu imaginava ser uma viagem relativamente rápida para resolver uma pendência que, para ser franca, eu vinha empurrando com a barriga. Eu estava de bom humor quando o número setenta e um foi chamado pouco depois de nos sentarmos. “Ótimo”, pensei, “vamos sair daqui rapidinho”.
Palavras proféticas. Só que não.
Mais de uma hora depois, chamaram o número setenta e dois. Depois de noventa minutos, finalmente chegamos ao guichê. . . só para descobrir que não poderíamos concluir a nossa missão ali. Nem preciso dizer que não pulei de alegria.¹
Talvez você já tenha passado por experiências parecidas:
Esperar a comida chegar em um restaurante.
Esperar para ser atendida pelo dentista.
Esperar o seu avião decolar ou a sua bagagem chegar.
Esperar no trânsito.
Esperar documentos serem processados.
Esperar para saber se conseguiu um emprego.
Esperar o resultado de um exame.
Esperar um conserto ser concluído.
Como fazemos isso o tempo todo, não precisamos de nenhuma ajuda para esperar. Somos todos especialistas nisso. Mas precisamos de ajuda para esperar bem. Duvido que muitas de nós — se é que alguma — afirmariam que já dominam essa habilidade elusiva.
A espera não é algo exclusivo da vida moderna. As Escrituras estão repletas de exemplos: Abraão e Sara esperando pelo filho prometido. José esperando os seus sonhos se tornarem realidade. Israel esperando pela libertação do Egito e, mais tarde, esperando para entrar na Terra Prometida. Calebe esperando por sua herança. Davi esperando para se tornar rei. Todo o povo de Israel esperando pelo Messias prometido. João Batista esperando pela manifestação de Jesus. Até mesmo Jesus esperando o início do Seu ministério.
Certamente, cada um desses relatos tem algo a nos ensinar sobre como esperar bem. Mas um dos manuais mais claros está no Salmo 27.
Diga a verdade a si mesma (vv. 1–3; 5–6)
Davi abre este salmo com uma magnífica declaração de confiança: “O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo? O Senhor é a fortaleza da minha vida; a quem temerei?” (v. 1). Começando em um cume desses, poderíamos esperar um salmo triunfante a seguir. No entanto, ao lermos os treze versículos seguintes, descobrimos que Davi não estava escrevendo a partir de uma situação de vitória, mas sim em meio à espera.
Os versículos seguintes revelam a gravidade das suas circunstâncias. Um exército é mobilizado contra ele (v. 3). Inimigos procuram destruí-lo (v. 2). A guerra o ameaça por todos os lados (v. 3). Se você ou eu disséssemos essas coisas, provavelmente estaríamos falando de maneira hiperbólica. Davi, não. Ao longo de sua vida, inimigos e conflitos pareciam segui-lo por onde quer que ele fosse.
Nesses versículos iniciais, vemos que Davi se recusou a ceder às mentiras que, sem dúvida, estavam rondando a sua mente. Você conhece algumas dessas mentiras:
Isso não adianta de nada.
Deus deve ter Se esquecido de mim.
Devo ter entendido errado a vontade de Deus.
Estou completamente sozinha.
A confiança de Davi não é fingida nem fabricada; ela está firmemente enraizada no caráter de Deus. Ele está reafirmando aquilo que sabe ser verdade, mesmo que naquele momento talvez não estivesse sentindo que fosse verdade. Os versículos seguintes deixam isso claro.
Derrame seu coração diante de Deus (vv. 7–12)
A parte central do Salmo 27 contém uma oração que pode parecer contradizer a confiança que vimos anteriormente. Davi suplica a Deus que não o rejeite com ira nem o abandone (v. 9). Ele pede a Deus que não o entregue à vontade dos seus adversários (v. 12). À primeira vista, parece que a sua confiança vacilou. Então, o que aconteceu?
Nada.
Nos versículos 1–3, Davi está pregando a verdade para si mesmo e levando cativos os seus pensamentos. Agora, ele muda de marcha e se volta para o que, de fato, está acontecendo em seu coração. Ele apresenta com franqueza os seus medos e as suas preocupações ao seu Pai celestial, sabendo que o Deus da aliança de Israel cuida dele (v. 10).
Isso nos instrui em nossos próprios períodos de espera. Deus não nos pede para reprimir as nossas emoções de forma estoica ou para fingirmos que elas não existem. Que exemplo poderia ser melhor do que o do nosso próprio Salvador, que, na noite em que foi preso, orou angustiado no jardim do Getsêmani (Lc 22.39–46)?
Pelo que você está esperando neste momento? Com quais emoções você está lutando? Leve-as ao seu Pai celestial. Ainda que todos os outros a abandonem, Ele jamais o fará. Lance sobre Ele as suas preocupações, confiante em Sua compaixão e em Seu cuidado por você (1Pe 5.7).
Firme o coração no fim correto (v. 4)
Entre as afirmações de Davi sobre a verdade, encontramos o desejo do seu coração:
Uma coisa peço ao Senhor
e a buscarei:
que eu possa morar na Casa do Senhor
todos os dias da minha vida,
para contemplar a beleza do Senhor
e meditar no seu templo. (Salmos 27.4)
Apesar de lutar com dificuldades reais e presentes, o coração de Davi estava firmado na eternidade. O seu maior desejo não era que Saul parasse de persegui-lo por toda aquela região. Não era tornar-se rei. Nem sequer era que o período de espera chegasse ao fim. Embora, sem dúvida, desejasse essas coisas, o que ele mais desejava, acima de tudo, era habitar com Yahweh, contemplar a Sua beleza e buscá-Lo em Seu templo. Nas palavras de Paulo, Davi havia firmado a sua afeição “nas coisas lá do alto, e não nas que são aqui da terra” (Cl 3.2).
Às vezes, a própria espera pode nos consumir. Não demora muito para que cada pensamento, conversa e desejo voltem àquela lacuna em que estamos vivendo. O nosso maior objetivo se torna simplesmente passar para o outro lado dela. Salmos 27.4, porém, nos lembra de buscar algo maior do que ter os nossos desejos realizados. Precisamos erguer os olhos das nossas circunstâncias e fixá-los na eternidade. Não temos exemplo maior disso do que o próprio Jesus, que suportou o sofrimento e a vergonha da cruz “em troca da alegria que lhe estava proposta” (Hb 12.2). O seu foco não estava no alívio presente, mas na alegria eterna.
Espere confiantemente (vv. 13–14)
Davi termina onde começou — com uma expectativa confiante. Em Salmos 27.13, ele mais uma vez fala a verdade para si mesmo, declarando que “[verá] a bondade do Senhor na terra dos viventes”. Ele ainda não a viu, mas deliberadamente se lembra daquilo que sabe ser verdade.
Então, ele traça o caminho que seguirá:
Espere no Senhor.
Anime-se, e fortifique-se o seu coração;
espere, pois, no Senhor. (v. 14)
Com o coração firmado no objetivo certo, a mente ancorada na verdade, e não nas mentiras, e o bote salva-vidas da oração continuamente nos lábios, você pode esperar tanto com força como com coragem. Você pode esperar bem.
¹ Para ser completamente justa com a funcionária do DMV, ela conseguiu me ajudar a descobrir o valor que eu teria de pagar para que o documento pudesse ser enviado pelo correio. Portanto, o nosso tempo não foi completamente desperdiçado.
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