Depois de uma discussão intensa, meu filho interrompeu a visita antes do previsto e saiu furioso em direção ao carro. Enquanto eu o observava dar marcha à ré e deixar a garagem, eu me dei conta.

No dia anterior, eu havia entregado o manuscrito de um livro alertando as pessoas exatamente sobre as atitudes e os comportamentos que eu havia acabado de demonstrar naquela discussão. Há apenas cinco minutos, eu estava completamente convencida de que tinha razão. Mas, agora, pude perceber claramente que estava errada — e o manuscrito recém-finalizado era a prova de que eu sabia muito bem como deveria ter agido. Se aquilo fosse um teste com câmera escondida, eu teria acabado de reprovar, e senti uma vergonha profunda. Como o meu ensino e a minha vida podiam estar tão distantes um do outro? 

Rapidamente, pedi perdão ao Senhor e, antes mesmo que o meu filho saísse do bairro, liguei para pedir perdão a ele. Ele me perdoou. Tudo ficou bem. Mas, durante dias, uma pergunta permaneceu em meu coração: será que eu realmente estava em condições de fazer esse trabalho?

Você já se sentiu uma hipócrita? Já foi tomada pela vergonha depois de ceder à tentação? Já se perguntou, em silêncio, se alguém com um casamento como o seu, uma família como a sua, os seus vícios ou os seus hábitos deveria mesmo estar ensinando ou liderando outras pessoas? 

Felizmente, as nossas credenciais estão fundamentadas na justiça de Cristo — e não na nossa. Somente Ele viveu perfeitamente tudo o que ensinou. Ainda assim, as Escrituras também nos lembram de que é cobrado um padrão mais elevado daqueles que pastoreiam o povo de Deus (Tg 3.1). Deus se importa profundamente com a mensagem que a nossa vida proclama a respeito dele (Ez 36.22).

Os líderes são especialmente suscetíveis à hipocrisia — um padrão que as Escrituras destacam repetidamente e que ainda testemunhamos em nossa geração. Então, como podemos ser mulheres que não apenas conhecem e ensinam a Bíblia, mas também vivem como se ela fosse verdadeira? Vamos considerar duas advertências que Jesus dirigiu aos pastores de Israel. 

Limpe primeiro o interior do copo

Ler sobre os fariseus me dá um choque de realidade. Sendo alguém que passa dias inteiros com a Bíblia aberta — preparando-me para ensinar e liderar mulheres que amam a Deus —, não consigo deixar de perceber que eles também eram dedicados às Escrituras. Eram zelosos de que as pessoas vivessem de acordo com os caminhos de Deus. No entanto, ao levantarem os olhos das páginas que apontavam para Jesus, eles O identificaram de forma completamente equivocada. Chegaram a pensar que o Santo vinha do maligno. Como puderam ser tão cegos?

Repetidas vezes, Jesus relacionou essa cegueira com o orgulho. O orgulho estava por trás de praticamente todos os conflitos que eles tinham com Ele. O orgulho tem um efeito obscurecedor — convence-nos de que os outros estão errados enquanto nos assegura de que nós estamos certos. O orgulho nos cega para a verdade. Foi isso que aconteceu com esses líderes religiosos, e Jesus não hesitou em lhes dizer a verdade. 

Na terça-feira que antecedeu a Sua crucificação, Jesus interrompeu o Seu ensino às multidões no templo para confrontar publicamente os fariseus — ali mesmo, no território deles (Mt 23.13–36). A Sua mensagem era, principalmente, um diagnóstico. Ao expor a corrupção deles, deu-lhes apenas uma ordem: “Limpe primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo” (v. 26).


A hipocrisia começa quando negligenciamos o que está dentro de nós. A palavra hipócrita originalmente se referia a um ator que usava uma máscara — um fingidor. Jesus amplia essa imagem ao falar de um copo limpo por fora, mas encardido por dentro. O interior e o exterior não correspondem um ao outro. A Sua instrução aos fariseus continua válida para nós hoje: primeiro limpe o interior. Essa é a prioridade.

Certa vez, Jesus perguntou a alguns fariseus: “Quem fez o exterior não é o mesmo que fez o interior?” (Lc 11.40). Deus nos criou para sermos pessoas íntegras, sem distinção entre o exterior e o interior, entre aquilo que é visto e aquilo que não é visto. Podemos enganar outras pessoas — e até a nós mesmas —, mas Deus vê quem realmente somos. Salmos 51.17 afirma: “Sacrifício agradável a Deus é o espírito quebrantado; coração quebrantado e contrito, não o desprezarás, ó Deus.” 

Na minha própria vida, isso significa que toda mensagem proclamada de uma plataforma ou escrita em uma página precisa primeiro realizar o seu trabalho em mim. A mensagem nunca é apenas para os outros; ela é, sempre, primeiro para mim. Deus deseja usar a Sua Palavra para remover do meu próprio coração a sujeira da ganância e dos prazeres carnais (Mt 23.25), antes que eu me derrame na vida de outras pessoas.

Pare e reflita:

  1. Quando foi a última vez que Deus usou Sua Palavra ou um sermão para convencê-la profundamente do seu pecado? Quão disposta você está a confessar seus pecados a Deus e aos outros?
  2. Quanto do seu tempo nas Escrituras é dedicado a preparar-se para cuidar de outras pessoas, em comparação com o tempo em que você mesma se deixa pastorear pelo Senhor? Considere reservar lugares ou cadeiras diferentes para esses dois propósitos ao abrir a sua Bíblia.
  3. Qual passagem bíblica você está se preparando para ensinar ou conduzir outras pessoas a estudar? Ore esse texto e peça a Deus que lhe mostre em que áreas a transformação precisa acontecer primeiro em você. 

Resista à tentação de “caiar sepulcros”

Toda primavera, na época da Páscoa, os sepulcros ao redor de Jerusalém eram caiados para que os viajantes não se aproximassem deles sem perceber e se tornassem cerimonialmente impuros (Nm 19.11). Jesus comparou os fariseus a sepulcros caiados — e não foi elogio. Por fora, pareciam belos; por dentro, porém, estavam cheios de impureza e injustiça (Mt 23.27–28).

Nós temos nossas próprias formas de caiar sepulcros. Publicamos nas redes sociais os momentos mais bonitos da vida. Expressamos publicamente a nossa gratidão pelas bênçãos de Deus sobre a nossa igreja ou ministério. Projetamos a imagem de famílias, lares e igrejas perfeitos, enquanto áreas mortas e apodrecidas permanecem escondidas sob a superfície. Assim como acontecia na antiga Jerusalém, os nossos “sepulcros caiados” mantém as pessoas a uma distância segura. Resistimos à vulnerabilidade porque preferimos ser admiradas de longe a correr o risco de ter as nossas lutas ocultas expostas. E se as pessoas soubessem o que realmente existe dentro de nós?

Mas Deus já sabe. E enviou Seu Filho não para nos condenar, mas para trazer o nosso pecado à luz, a fim de nos transformar em membros vivos do Seu corpo (Jo 3.17, 20–21Rm 12.4–5). 

Há algum tempo, deixei de servir em minha igreja da maneira como costumava fazer. Eu amava ensinar no ministério infantil e liderar um pequeno grupo, mas os convites para ensinar fora da minha igreja acabaram ofuscando o meu envolvimento dentro dela. Depois de alguns anos, comecei a me sentir solitária e percebi o meu coração se afastando pouco a pouco. Seria sábio servir principalmente em plataformas, entre pessoas que não me conheciam na vida real? 

Então participei de um almoço promovido pelo Revive Our Hearts, no qual a palestrante compartilhou como Deus não considera necessariamente o “maior” como melhor. O ministério mais amplo que Deus havia confiado a ela começou com algo pequeno, pessoal e invisível — como discipular uma menina ou servir discretamente às crianças pequenas na igreja. No reino de Deus, aquilo que é grande está sempre enraizado no pequeno.

Voltei para casa profundamente convencida pelo Senhor. Eu não tinha a intenção de mascarar nada, mas, ao servir apenas de maneiras públicas, era exatamente isso que eu estava fazendo. Estava construindo uma barreira ao meu redor que colocava a minha saúde espiritual em risco. Hoje estou ainda mais convencida de que aqueles de nós que servem publicamente precisam de pessoas suficientemente próximas para perceber — e amorosamente apontar — quando alguma área da nossa vida começa a apodrecer sob a superfície. Se nunca enfrentamos conflitos ou nos submetemos à prestação de contas com outros irmãos em Cristo, talvez estejamos vivendo como sepulcros caiados.

Continuo amando servir a Deus publicamente — como faço agora ao escrever para você. Mas também estou comprometida a servir de maneiras próximas e pessoais — como receber uma jovem mãe da igreja para um café ou resolver conflitos com uma querida irmã no ministério que enxerga as coisas de forma diferente da minha. Esses relacionamentos mantêm a minha vida alinhada com o meu ensino.

Pare e reflita:

  • Se o seu ministério faz com que mais pessoas olhem para você, você se sente tentada a esconder as suas fraquezas? De que maneiras você pode estar “caiando os sepulcros” da sua própria vida para manter os outros à distância?
  • Reflita sobre esse último ano. Quem a amou o suficiente para desafiá-la ou confrontá-la? Se ninguém lhe vem à mente, será que você é apenas conhecida superficialmente? 
  • Se Deus lhe confiou um ministério de “maior” alcance, de que maneiras você também está investindo em atos de serviço pequenos e discretos que mantêm os seus pés no chão e lhe permitem ser conhecida?

No dia em que o meu filho saiu pela porta, eu tinha uma escolha a fazer. Deixaria que houvesse um abismo entre aquilo que o meu manuscrito proclamava e o que minha vida revelava, ou me humilharia, permitindo que Deus transformasse não apenas a minha maneira de pensar, mas também as minhas ações? 

Os fariseus amavam ser admirados à distância. Verdadeiros discípulos abrem-se para que Jesus limpe o interior do copo — e convidam outras pessoas a participarem desse processo. É assim que nos protegemos de conhecer a Bíblia como hipócritas e, em vez disso, vivemos como se o Evangelho que proclamamos fosse verdade. 

 

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Sobre o Autor

Shannon Popkin

Shannon Popkin tem a alegria de compartilhar a vida com seu marido, Ken, e juntos assistirem a seus três filhos jovens se tornarem as pessoas incríveis que Deus os criou para ser. Através de palestras, dos livros que escreveu e do podcast do qual é apresentadora, Shannon convida as mulheres a beberem profundamente da Palavra de Deus e a viverem de acordo com ela. Ela é autora publicada e apresentadora do podcast Live Like It’s True, que busca ensinar seus ouvintes sobre a grande história da Bíblia, como vivê-la e como compartilhá-la.