Há cinco anos, a vida parecia pesada demais. Eu não estava exatamente no “fundo do poço do desespero”, mas certamente havia dias em que eu não sabia quanto mais conseguiria suportar. O meu marido e eu estávamos enfrentando os desafios de criar um filho adolescente neurodivergente. À medida que a puberdade trazia uma enxurrada de novas emoções e experiências, a nossa casa muitas vezes parecia uma zona de guerra. E, como educávamos o nosso filho em casa, geralmente era eu quem recebia o impacto maior dessas dificuldades.

Dia após dia, eu me deparava com explosões emocionais, acessos de raiva e resistência. O meu marido e eu buscamos toda ajuda que conhecíamos: conselheiros, cuidados médicos, mudanças em casa e a sabedoria dos líderes da igreja. Mas nada parecia trazer alívio.

Passei o que pareciam horas chorando ou emocionalmente paralisada, sem saber o que fazer. Não podemos continuar vivendo assim, eu pensava. Eu não consigo mais fazer isso. Deus, me ajuda! Ajuda o meu filho, ajuda-nos. 

No entanto, os meus clamores por ajuda pareciam encontrar apenas silêncio. Será que Deus não nos via? Será que não sabia o que estava acontecendo? Por que Ele não ajudava? O meu coração foi ficando cansado enquanto eu clamava repetidas vezes, perguntando-me se Ele estava ouvindo. Sinceramente, eu tinha pouca esperança. Quando olhava para o futuro, tudo o que conseguia ver era a mesma estrada se estendendo infinitamente à minha frente. 

Sobrecarregada. Sozinha. Desesperada. Essas palavras me descreviam. Talvez descrevam você também. Talvez as suas circunstâncias não sejam iguais às minhas, mas você sabe como é se perguntar: Deus, onde estás?

O escritor do Salmo 102 entendia esse sentimento. Embora as suas circunstâncias fossem diferentes, ele sentia muitas das mesmas coisas que eu sentia — estava aflito, cansado e desesperado para que Deus o ouvisse. Ao examinarmos as suas palavras, vemos um modelo de como clamar a Deus em meio ao sofrimento — e um lembrete de onde a nossa esperança deve estar firmada. 

Seja sincera com Deus 

Ouve a minha oração, Senhor!
Chegue a ti o meu grito de socorro!
Não escondas de mim o teu rosto quando estou atribulado. Inclina para mim os teus ouvidos;
quando eu clamar, responde-me depressa! (vv. 1–2, NVI)

Estudiosos não sabem quem escreveu o Salmo 102, mas sabemos que o autor estava sofrendo. Como ele menciona que Jerusalém estava em ruínas, muitos acreditam que esse salmo foi escrito durante o exílio de Israel na Babilônia.¹ Longe de sua terra natal, aflito, solitário e sobrecarregado, o salmista suplica a Deus que o ouça — e que responda depressa.

Fico pensando se, assim como eu, o salmista via poucas perspectivas de mudança em suas circunstâncias ao olhar para o futuro. Talvez ele também estivesse cansado de enfrentar a mesma luta dia após dia. A sinceridade das suas palavras me faz lembrar  de que Deus acolhe as orações de pessoas cansadas.

Ao clamar a Deus, o salmista não finge que está tudo bem. Ele é completamente sincero a respeito da sua situação. Está sofrendo (v. 3) e profundamente aflito. Tão consumido pelo sofrimento — seja físico ou emocional — que se esquece de comer e fica fraco e debilitado.

Em meio à sua dor, ele se sente isolado e sozinho. Ele descreve uma profunda solidão, desolação e quebrantamento emocional. Em determinado momento, chega a expressar o sentimento de que o próprio Deus o havia abandonado.

Durante aquele período difícil, cinco anos atrás, eu não compartilhei muito com outras pessoas. Às vezes, sentia vergonha, como se, de alguma forma, aquilo pudesse ser culpa minha como mãe. E, por respeito à privacidade do meu filho, confidenciei o que estava acontecendo apenas a poucas amigas de confiança.

Mas com Deus? Eu contava tudo a Ele. Eu sabia que não precisava fingir. Podia levar a Ele os meus pensamentos sinceros — até mesmo nas vezes em que me sentia abandonada por Ele.

Deus podia lidar com aquilo naquela época, e pode lidar com isso agora. Ele não ficou decepcionado com a minha sinceridade — e não ficará decepcionado com a sua. Ele nos convida a ser completamente transparentes diante dele.

Lembrem-se de quem Deus é

Tu, porém, Senhor, no trono reinas para sempre;
O teu nome será lembrado de geração a geração.
Tu te levantarás e terás misericórdia de Sião. (vv. 12–13, NVI)

À medida que o salmista continua a sua oração no versículo 12, as suas circunstâncias não mudaram — mas o seu foco, sim.

Como em muitos outros salmos, essa oração passa do peso do sofrimento pessoal para uma decisão deliberada de voltar o coração para quem Deus é. O Senhor “no trono [reina] para sempre”. Ele não é abalado pelas circunstâncias mutáveis, e os Seus propósitos não são limitados pelos esforços humanos. O Seu nome permanece de geração a geração.

O meu foco facilmente se volta para mim mesma — para o que sinto, o que temo e o que parece impossível. Durante aquele período de intensos desafios na criação do meu filho, muitas vezes era difícil erguer os olhos para além das dificuldades presentes. Na maioria dos dias, eu me sentia despedaçada, exausta e sem saber se alguma coisa poderia mudar. Naquele contexto, até mesmo os conselhos de livros, profissionais e a medicina ofereciam pouca esperança. 

Mas o que me manteve firme — mesmo quando nada ao meu redor havia mudado — foi lembrar-me do caráter de Deus: eterno, soberano e no controle. Um dia, Ele “se manifestará em glória” e endireitará todas as coisas. E, até esse dia, Ele “responderá à oração dos desamparados; não desprezará as suas súplicas” (v. 17, NVI).

Quando a vida parece incerta, não podemos ancorar a nossa fé em circunstâncias mutáveis ou em coisas que são temporárias e desaparecerão um dia. Em vez disso, encontramos estabilidade no caráter imutável do próprio Deus — que reina para sempre, que vê os aflitos e que jamais está distante das orações que mal conseguimos proferir.

Lembre-se da compaixão de Deus

Do seu santuário nas alturas o Senhor olhou;
dos céus observou a terra,
para ouvir os gemidos dos prisioneiros
e libertar os condenados à morte. (vv. 19–20)

À medida que o salmista volta a sua atenção para a grandeza de Deus, ele também afirma o Seu cuidado e a Sua compaixão. Esse Deus grandioso não é um Deus distante. Ele vê os quebrantados de coração. Ele ouve as nossas orações. Ele cuida do Seu povo e traz liberdade e restauração onde há desolação. O salmista, então, nos lembra de que Deus age no “tempo certo” (v. 13) — segundo o Seu cronograma, não o nosso.

Eu sei o que é orar por alívio e não ver uma mudança imediata. Durante aquele período difícil, eu ansiava pela intervenção rápida de Deus. Mas, dia após dia, a vida continuava pesada e sem mudanças.

Ainda assim, mesmo no auge dos momentos mais difíceis, Deus me deu vislumbres da Sua compaixão e graça — lembretes pequenos, mas constantes, de que Ele estava perto.

Uma ligação inesperada de uma velha amiga me dava a oportunidade de abrir o coração — e também alguém com quem eu podia orar. Uma nova amizade com outra mãe que percorria uma jornada semelhante a minha me lembrava de que eu não estava sozinha. Louvores davam voz a orações que eu não conseguia articular em palavras, e as Escrituras conduziram o meu coração de volta à Única e Verdadeira Esperança.

Essas coisas não eliminavam a luta, mas me lembravam de uma verdade: Deus vê, Deus se importa e Deus está presente. E Ele é digno de ser louvado. 

Lembre-se do nosso eterno Deus

Tu, porém, permaneces o mesmo,
e os teus anos jamais terão fim.
Os filhos dos teus servos terão uma habitação;
os seus descendentes serão estabelecidos na tua presença.
(vv. 27–28, NVI)

Ao concluir o salmo, o autor volta a sua atenção novamente à sua própria fragilidade. A sua força parece limitada, os seus dias, incertos. E, no entanto, ele contrasta a sua fraqueza com a natureza imutável de Deus. Enquanto a própria criação se desgastará e passará, o Senhor permanece para sempre. Ele é o “Alfa e o Ômega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim” (Ap 22.13).

Apesar do seu sofrimento, o salmista descansa nesta verdade: em última instância, a verdadeira segurança só é encontrada no Senhor. As suas circunstâncias podem mudar, mas o seu alicerce não mudará.

Houve muitos dias em que a vida parecia uma montanha-russa — alternando altos e baixos de um segundo para o outro. E, assim como em um brinquedo de verdade, isso me deixava enjoada e emocionalmente exausta. Em um determinado momento, uma conselheira sábia me deu uma perspectiva simples, mas transformadora: não ande na montanha-russa; afaste-se dela e observe-a. E lembre-se de manter os pés firmemente firmados no caráter e na Palavra de Deus.

Você não precisa ser definida pelos altos e baixos das suas circunstâncias. Você é convidada a firmar os pés sobre algo muito mais firme — o Deus imutável que reina para sempre. Mesmo agora, Ele é capaz de mantê-la firme.

Fixando os meus olhos no Deus imutável

Aqueles anos que pareceram ser uma crise familiar já ficaram para trás. O meu filho cresceu em vários aspectos, e o meu marido e eu amadurecemos em nossa compreensão de como amá-lo e apoiá-lo. A vida não está livre de desafios, mas já não carrega o mesmo peso esmagador.

Ainda oro por nossa situação, apresentando o meu filho e a nossa família diante do Senhor, pedindo a Ele: “quando eu clamar, responde-me depressa”. Mas, assim como o salmista, estou aprendendo a erguer os olhos para além daquilo que vejo e a descansar na verdade de quem Deus é.

Porque a vida continuará mudando — mas Ele não mudará. E é nisso que deposito a minha esperança.

 

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1 GUZIK, David. Psalm 102. Enduring Word Bible Commentary. [S. l.], [s. d.]. Disponível em: https://enduringword.com/bible-commentary/psalm-102/.

Referência Bíblica: Salmos 102

Sobre o Autor

Mindy Kroesche

Mindy vive em uma cidade pequena do centro-oeste estadunidense com o seu marido e dois filhos, mas, no fundo, ela é uma garota do interior. Ela gosta de relaxar à beira do lago com a sua família, se aconchegar com um livro de mistério envolvente e descobrir quais cafeterias servem os melhores mochas de framboesa. Ela é grata pela âncora da Verdade da Palavra de Deus que a manteve firme ao longo das pequenas e grandes tempestades da vida. [Autora dos devocionais dos dias 4, 10, 17, 24 e 30]