Em um trabalho do 3º ano, o meu filho definiu gratidão desta forma: “É quando você não gosta muito de alguma coisa, como o jantar, e o seu pai diz que você deve ser grato por ele.”
Tenho certeza de que ele estava se imaginando tomando grandes goles de água para ajudar a engolir os pimentões recheados (o jantar que ele menos gosta). Ah, quem me dera ser um aluno do terceiro ano, cujo melhor exemplo de algo desagradável são pimentões recheados!
Como adultos, temos coisas muito maiores para “engolir”:
- “Nãos” e perdas inexplicáveis;
- Relacionamentos rompidos e divórcios;
- Limitações físicas ou financeiras;
- Batalhas contra o câncer e outras doenças.
Diante disso, sou muito mais tentada a engasgar e reclamar do que a dizer: “Obrigada, Senhor!”. Mas uma amiga me disse recentemente: “Eu sei que Deus diz para sermos gratos em todas as circunstâncias (1Ts 5.18). Mas será mesmo que devo ser grata por todas as coisas? Por coisas dolorosas, ruins e terríveis?”
Quando ela se expressou dessa forma, precisei refletir. Por que Deus nos pediria para sermos gratos por coisas que parecem tão contrárias ao Seu caráter? Mas não encontrei brechas na exortação de Paulo para dar graças a Deus “sempre e por tudo” (Ef 5.20, ênfase acrescentada).
Paulo não estava sendo ingênuo. Poucos versículos antes, ele diz que “os dias são maus” (Ef 5.16). E ele sabia por experiência própria quais eram esses males. Por onde quer que andasse, havia pessoas tentando matá-lo! Ainda assim, Paulo é o cara que diz que devemos ser gratos por tudo.
Não creio que Paulo estivesse sugerindo que dançássemos em funerais ou déssemos festas para celebrar o câncer. Ele mesmo pediu a Deus que removesse o seu “espinho na carne”. Mas quando Deus não o retirou, Paulo disse que era grato. Por quê? Porque aquele espinho o impedia de se tornar orgulhoso (2Co 12.7).
Preciso admitir que os meus espinhos fazem a mesma coisa por mim. Não há nada como um bom espinho para perfurar a minha autossuficiência sempre inflada e me lembrar do quanto dependo de Deus. Talvez, se você olhar para trás, também consiga ver como Deus usou coisas dolorosas para voltar a sua atenção para Ele.
Nenhuma de nós escolheria a dor ou o sofrimento. Quando um espinho nos perfura, nós nos afastamos imediatamente. Quando ele se aloja na nossa vida e cria uma ferida infeccionada, fazemos de tudo para removê-lo. Ele exige atenção constante e rouba todo o prazer da vida cotidiana. Nós nos voltamos para Deus, implorando que Ele o retire. Mas, às vezes, Ele não o faz.
Nove meses de horários de almoço
Lembro-me de contar a uma amiga sobre a situação terrível que outro casal de amigos meus, Matt e Jane, havia passado. No início da gravidez, eles descobriram que o bebê tinha uma alteração cromossômica e não sobreviveria, ainda assim Jane provavelmente levaria a gestação até o fim. Todos os dias, Matt passava o horário do almoço em uma capela próxima, de joelhos, implorando a Deus que curasse o bebê e os livrasse daquela dor. Mas o bebê de Matt e Jane viveu apenas cinco minutos após o nascimento e partiu para estar com Jesus.
A minha amiga, ao ouvir sobre a angústia que eles haviam enfrentado, me surpreendeu dizendo: “Sim, é terrível. Mas pense no que Deus pode fazer em nove meses de horários de almoço passados em oração!” Eu não podia negar que Deus havia sido fiel aos meus amigos e que aquela luta os havia levado a buscar a Deus como nunca antes.
Reconhecendo a Deus
Salmos 107.22 diz: “Ofereçam sacrifícios de ações de graças”, e Salmos 116.17 (NVI) fala de um “sacrifício de gratidão”. Esses versículos não me remetem a carne dourando sobre um altar. Mas aposto que era isso que a nação de Israel imaginava ao cantar esses salmos. Talvez até pudessem sentir o agradável aroma da gordura do sacrifício, conforme as instruções de Levítico 7, a qual era recebida por Deus como ação de graças.
Hoje, obviamente, não sacrificamos mais bois e cordeiros para tratar do nosso pecado ou para agradecer a Deus. Jesus foi o nosso sacrifício único e definitivo, entregue por Deus sobre o altar. Mas, em gratidão por tudo o que Deus fez, há um sacrifício que somos chamadas a oferecer continuamente: o sacrifício de louvor.
Hebreus 13.15 diz: “Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome.” Portanto, o sacrifício que depositamos sobre o altar — aquilo que se torna aroma suave para Deus — é fruto. Não o fruto que se come, mas o que cresce no coração e se transforma em palavras que reconhecem a Deus.
O fruto que nasce dos espinhos
Como você sabe, os frutos levam tempo para crescer. Portanto, esse sacrifício de reconhecer a Deus não é um rápido pensamento superficial — como um atleta cheio de si apontando o dedo para o céu depois de marcar um gol. Esse fruto é cultivado ao longo de uma temporada inteira, dia após dia — talvez um horário de almoço após o outro, dizendo: “Eu não sou forte; eu sou fraca . . . tão fraca. Eu preciso de Ti, Senhor.”
Todos nós começamos a vida dizendo: “Não preciso de nada. Eu mereço tudo.” Mas Deus deseja nos transformar em pessoas que dizem: “Eu preciso de Ti, Jesus. Eu me rendo a Ti.” Então, Ele usa espinhos — aqueles que causam dor física e também aqueles que causam crises emocionais e espirituais. Esses espinhos nos colocam na postura correta diante de Deus: de joelhos.
Gratidão é…
No fim, o meu filho estava certo. Gratidão é valorizar até mesmo as coisas da vida que você preferiria não ter no seu prato. Devemos agradecer a Deus por todas as coisas — inclusive pelos espinhos? Deixo essa decisão com você. Mas primeiro, considere: como você seria se a sua vida fosse livre de espinhos? Os seus lábios estariam reconhecendo a Deus ou a si mesma?
Quais espinhos estão perfurando a sua vida e causando dor ou feridas? Passe um tempo hoje permitindo que o seu espinho a coloque de joelhos diante de Deus. O que Ele quer que você reconheça sobre Ele? Como você pode viver este período de dor cultivando um coração que diz: “Eu preciso de Ti, Senhor”?
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