Nota do editor: É citado neste artigo o livro What is a Woman? (O que é uma mulher?), escrito por Mary Kassian. A obra está prevista para ser publicada no Brasil em 2027. Por isso, apresentamos aqui uma tradução livre dos trechos citados.
“O que significa o W em WNBA?”
Essa é a pergunta que a Associação Nacional de Basquete Feminino dos Estados Unidos (WNBA, Women's National Basketball Association) tem tido dificuldade para responder nas últimas semanas. Apesar de ter a palavra “mulher” em seu nome, a liga tem sido incapaz de definir o significado desse termo. A associação se viu envolvida na mesma confusão que tomou conta de boa parte da nossa cultura: O que, exatamente, significa ser uma mulher?
Quando este artigo for publicado, talvez a WNBA já tenha apresentado sua própria “resposta”. Mas, sob a superfície dessa pergunta, existe outra — uma pergunta que vai muito além do mundo do basquete feminino e que não desaparecerá tão cedo: Cabe a quem definir o que é uma mulher?
É aí que está a tensão mais profunda. A resposta cristã vai na contramão do nosso tempo, que nos diz que podemos definir a nós mesmas — mas não somos nós que temos a palavra final. Não cabe a nós inventar ou redefinir a feminilidade; ela é algo que recebemos daquele que nos criou.
E, enquanto a nossa cultura se ocupa em apresentar as suas respostas (ou em evitar a pergunta), uma nova geração de meninas está ouvindo. Elas estão aprendendo o que significa ser mulher nas salas de aula e nos vestiários, nos livros e nas séries que assistem, acompanhadas por vozes conflitantes por onde quer que vão. De inúmeras maneiras sutis, estão absorvendo histórias sobre a origem da identidade e sendo alimentadas com mentiras de que cabe a elas decidir quem são.
Como mulheres cristãs, temos uma história diferente para transmitir — uma história que coloca a caneta da identidade nas mãos do Criador. Mas, se queremos que as jovens das próximas gerações confiem na bondade do Seu plano, primeiro precisamos perguntar: Estamos mostrando a elas, por meio da nossa própria vida, que estar nas mãos de Deus é bom?
A coragem para ser clara
O mundo tem medo de responder à pergunta: “Quem define o que é uma mulher?”. Mas, sejamos honestas: às vezes, nós também temos. Não é que não tenhamos as respostas, mas às vezes hesitamos em afirmar que Deus é a fonte suprema porque sabemos como a verdade soará aos ouvidos modernos.
Talvez nos sintamos à vontade para falar sobre o que a biologia revela a respeito do corpo feminino ou para apontar para a bela ordem que permeia a criação — e essas são verdades importantes. Mas talvez achemos mais difícil atribuir essas verdade à sua própria Fonte e dizer às pessoas de maneira simples e clara: Deus nos criou. Deus nos define. E aquilo que Ele criou é bom.
Talvez hesitemos porque sabemos que ser claras nessa questão pode ter um custo para os nossos relacionamentos. Ao conversar com uma amiga de longa data que pensa de maneira diferente, talvez suavizemos a nossa linguagem porque não queremos que ela pense que a estamos julgando. No trabalho, talvez fiquemos em silêncio quando surgem políticas ou conversas sobre gênero porque não temos certeza do quanto podemos dizer sem sofrer consequências profissionais. Em pequenos grupos, talvez sejamos tentadas a falar de maneira vaga porque tememos que respostas claras pareçam políticas em vez de bíblicas. On-line, talvez escolhamos cuidadosamente as palavras para expressar as nossas convicções, cientes de que as nossas mensagens podem ser capturadas, tiradas de seu contexto e compartilhadas por aí.
Muitas vezes, escolhemos pesar as nossas palavras porque imaginamos o que pode acontecer se formos claras: Ela não vai mais falar comigo. Vão me achar intolerante. Não vou saber como responder à próxima pergunta. Vou deixar o clima estranho. Vão me entender mal. Vou magoar alguém que amo.
Esses medos não são imaginários, e seguir a Jesus não significa que devemos ser descuidadas ou indiferentes na maneira como abordamos quem não compartilha das nossas crenças. As Escrituras nos chamam a imbuir as nossas palavras de graça, humildade e sabedoria (1Pe 3.15–16).
Mas devemos estar dispostas a perguntar o que a nossa hesitação revela sobre o nosso próprio coração. A autoridade de Deus é algo que afirmamos em teoria — ou algo em que aprendemos a confiar e colocar em prática? Cremos não apenas que Deus tem o direito de definir o que é uma mulher, mas também que Ele é bom ao fazê-lo — e que a Sua sabedoria é digna de ser compartilhada com outras pessoas?
Nas mãos do oleiro
A nossa disposição para nos firmarmos na autoridade de Deus depende, pelo menos em parte, daquilo que cremos a respeito do Deus que exerce essa autoridade. Se Deus fosse apenas poderoso, mas não fosse bom, talvez a Sua autoridade fosse algo a que nos submetêssemos com relutância. Mas as Escrituras nos apresentam um quadro muito mais belo. O Deus que tem todo o direito de nos definir é o Deus que nos formou com propósito e cuidado.
Vemos isso, é claro, nas primeiras páginas das Escrituras. Mas outra imagem significativa aparece ao longo de toda a Bíblia: Deus como o oleiro e o Seu povo como o barro. Isaías 64.8 declara: “Senhor, tu és o nosso Pai; nós somos o barro, e tu és o nosso Oleiro; e todos nós somos obra das tuas mãos”.
Em seu livreto O que é uma mulher?, Mary Kassian diz que “a Bíblia quer que nos vejamos como vasos formados pelo Mestre Artífice, cada uma moldada intencionalmente para um propósito específico”. Ela escreve:
Como Deus criou essa obra-prima viva? Ele a formou com as próprias mãos. A palavra hebraica é yatsar — a mesma palavra usada para descrever um oleiro moldando o barro. Ela sugere uma atividade artística e criativa que exige habilidade e planejamento — um trabalho realizado com grande cuidado e precisão.
Deus não se limitou a fazer a humanidade existir por meio de palavras, como fez surgir a luz ou ordenou que as águas se ajuntassem. Com o restante da criação, Ele simplesmente falou. Mas e com a humanidade? Ele colocou as mãos na massa. Ele formou. Ele moldou. Ele arquitetou.1
Mary continua e diz que essa realidade deveria nos maravilhar:
O Deus que criou galáxias a partir da Sua palavra, inclinou-Se para formar você com as próprias mãos. O Deus que mede os oceanos na concha de Sua mão teve um cuidado infinito com os detalhes da estrutura do seu corpo feminino. Você é importante para Ele — não de uma maneira vaga ou sentimental, mas de uma maneira específica, detalhada e pessoal.2
Há momentos em que é fácil nos maravilharmos com essa realidade e a adoração flui naturalmente. Mas há momentos em que olhamos para o nosso corpo, e ele parece muito mais um fardo do que algo belo. Ou nos deparamos com aspectos da condição feminina — a dor que acompanha a menstruação, as mudanças da gravidez e do pós-parto, a maneira como o corpo feminino armazena gordura, oscila hormonalmente e envelhece — e nos pegamos desejando, ainda que apenas um pouco, que Deus tivesse planejado as coisas de outra maneira.
Quando somos tentadas a questionar a sabedoria do Oleiro, outra imagem bíblica do barro se torna especialmente relevante. Em Jeremias 18, o Senhor envia o profeta Jeremias a uma olaria para observar o oleiro trabalhando (vv. 1–2). Ao refletir sobre essa cena, Mary Kassian escreve:
Fico imaginando o que passou pela cabeça de Jeremias enquanto ele observava as mãos do artesão moldando a argila em movimento. Talvez tenha se lembrado das palavras de Isaías, que havia escrito décadas antes: “Como vocês invertem as coisas! Será que o oleiro é igual ao barro? Pode a obra dizer ao seu artífice: ‘Ele não me fez’? Pode a coisa feita dizer do seu oleiro: ‘Ele não sabe nada’?” (Isaías 29.16).
A própria ideia era absurda — completamente risível . . . Era óbvio, ao observar o artesão trabalhar, que a argila não tinha voz na definição da sua forma ou propósito.
Depois de Jeremias ter compreendido aquela cena, Deus deu ao profeta uma mensagem — pessoal e contundente: “Como o barro na mão do oleiro, assim são vocês na minha mão” (Jeremias 18.6).3
Séculos mais tarde, Paulo perguntou: “Será que o objeto pode perguntar a quem o fez: ‘Por que você me fez assim?’” (Rm 9.20)
Claramente, a resposta é não. A argila não dá instruções ao oleiro. A criação não dita regras ao Criador. O Oleiro tem o direito de moldar a argila e decidir que tipo de recipiente ela será.
O padrão é claro: Deus é o Criador, não um consultor. Os seres humanos são formados, não autodefinidos. E questionar o projeto de Deus — insistir que sabemos mais do que o nosso Criador — não é apenas tolice. É ilógico. E até mesmo arrogante.4
Ao lermos essas palavras, talvez pensemos primeiro em nossa cultura, que rejeita abertamente o direito do Oleiro de moldar a argila. Mas essa imagem também exige algo de nós. A argila não precisa levantar o punho contra o Oleiro para resistir às Suas mãos.
Talvez a nossa confiança no Oleiro seja mais visível por meio do nosso exemplo. A próxima geração não está aprendendo o que significa ser mulher apenas por aquilo que ensinamos, mas também pela maneira como vivemos a nossa própria feminilidade. Se elas estivessem aprendendo quem tem o direito de definir o que é uma mulher simplesmente vendo o nosso exemplo — observando as nossas palavras e as nossas atitudes —, em qual autoridade elas acreditariam que confiamos?
Talvez nos ouvissem dizer que Deus as criou mulheres, mas aprendessem, pelo nosso exemplo, que ainda cabe a elas decidir o que isso significa.
Talvez ouvissem que os seus corpos foram maravilhosamente projetados, enquanto nos vissem falar do nosso próprio corpo como um problema que precisa ser reduzido, escondido ou do qual devemos nos ressentir.
Talvez aprendessem que a autoridade de Deus fosse algo que proclamamos, mas não necessariamente algo que nos dá prazer.
Há mais em jogo do que imaginamos. Não estamos apenas ensinando à próxima geração o que uma mulher é; estamos mostrando a elas o que significa acolher — ou rejeitar — Aquele que as define.
Uma feminilidade que vale a pena transmitir
As mulheres mais jovens ao redor da nossa mesa e em nossa igreja precisam de mais do que mulheres mais velhas capazes de defender uma definição da verdadeira feminilidade. Elas precisam de mulheres cujas vidas respondam corajosa e humildemente à pergunta “Cabe a quem definir o que é uma mulher?” — e que o façam com gratidão e alegria.
Elas precisam ver mulheres florescendo sob a boa autoridade de Deus, mulheres que possam dizer, com uma confiança cada vez maior: “Deus sabia o que estava fazendo”. Elas precisam do exemplo de mulheres que aceitam a sua condição de mulher como algo dado com intenção, e não como uma mera invenção. Precisam de mulheres que possam reconhecer a difícil realidade de viver em um mundo caído, sem desprezar aquilo que Deus criou. Precisam de modelos que, em última análise, confiem o suficiente no Oleiro para deixar a modelagem nas mãos dele.
A próxima geração precisa de mulheres que lhes digam — não apenas com as suas palavras, mas com a sua vida:
Deus não se limitou a salpicar a feminilidade na sua vida tal como se fosse um tempero. Ele a entrelaçou à própria trama da sua existência. . . . Cada célula do seu corpo declara uma verdade que o seu coração precisa ouvir: você é mulher por desígnio, não por acaso.5
Cabe a quem definir o que é uma mulher? Essa questão não será resolvida por uma liga esportiva ou pelo legislativo, pelo consenso cultural ou pela preferência individual. A resposta pertence Àquele que primeiro concebeu a feminilidade. Deus define o que é ser mulher.
Um dos maiores presentes que podemos dar à próxima geração é mostrar a elas que viver sob a autoridade de Deus não é algo a temer nem algo que devemos simplesmente suportar. As mãos do Oleiro são um bom lugar para se estar.
Clique aqui para ler o original em inglês.
1 KASSIAN, Mary. What Is a Woman? The Question Our World Is Afraid to Answer. Niles, MI: Revive Our Hearts, 2026, p. 16. Tradução livre.
2 KASSIAN, 2026, 19. Tradução livre.
3 KASSIAN, 2026, 34. Tradução livre.
4 KASSIAN, 2026, 34. Tradução livre.
5 KASSIAN, 2026, 37–38. Tradução livre.