No meio de um chá de bebê ao qual fui um tempo atrás, a futura mamãe foi até a minha mesa com um cabide cheio de prendedores de roupa. Ela chamou a atenção das pessoas ao redor e começou a explicar as regras do jogo: o objetivo era que cada uma de nós pegasse todos os vinte e poucos prendedores presos ao cabide, soltando-os um por um usando apenas uma mão e sem deixar que nenhuma peça caísse no chão.

Depois que as regras foram explicadas e todas as perguntas foram respondidas, as mulheres que estavam se preparando para jogar foram tirando as suas joias, deixaram os celulares de lado e começaram a alongar os dedos. Enquanto cada uma posicionava as mãos para soltar e segurar o maior número possível de prendedores, as demais observavam o progresso e contavam em voz alta.

A cada rodada, havia um momento silencioso em que todas à mesa sabiam que a participante havia chegado ao seu limite. Não importava quantos prendedores uma mulher estivesse segurando naquele momento — ela poderia ter conseguido seis, doze ou vinte e dois — se demonstrasse sinais de perda de controle, se os dedos começassem a tremer, então sabíamos que era apenas uma questão de segundos até que tudo o que ela estava segurando caísse ruidosamente sobre a mesa.

A gota d’água

Já percebeu como muitas vezes conseguimos perceber quando uma mulher está chegando ao seu limite em outras áreas da vida? Você já viu aquela amiga ou familiar que parece estar carregando mais fardos do que qualquer outra pessoa que você conheça. Ela tem enfrentado desafios no casamento, lidado com uma doença crônica há décadas ou trabalhado em um emprego que exige demais dela enquanto concilia tudo isso com as suas responsabilidades como mãe solo. Então, mais uma coisa cai em seu colo, outro desafio esmagador e doloroso, e você percebe na hora que isso pode ser a gota d’água.

Os noticiários registram esses momentos com frequência. Eles chamam a sua atenção para a mulher que está em frente à própria casa, poucas horas antes da chegada de um furacão previsto para atingir uma ilha já devastada pela pobreza. Antes que a tempestade chegue, você sente no fundo do seu peito a aparente injustiça das circunstâncias dela.

O vídeo em sua tela dura somente trinta segundos, mas parece que, se mais uma gota de chuva cair sobre aquele telhado, você verá o mundo inteiro dela desabar. Esse pensamento, por si só, já levanta perguntas: Como isso pode acontecer além de tudo o que ela já passou? Essa mulher já não sofreu o suficiente?

Quando a compaixão distorce a sua visão de Deus 

Pelos últimos dez anos, meu desejo tem sido escrever para ela: a mulher sobrecarregada pelo sofrimento, que sente que está desmoronando sob o peso de tudo o que está sobre os seus ombros. Mas, ultimamente, tenho prestado cada vez mais atenção à mulher que observa do outro lado da televisão e do outro lado da mesa. A fé dela também é moldada ao testemunhar o sofrimento de outra pessoa — a sua fé será fortalecida pela realidade de um Deus bom e soberano, ou enfraquecida, a cada nova tempestade.

Nos últimos anos, tenho visto amigas desconstruírem a sua fé em Cristo como resposta ao sofrimento. Elas nem sempre se afastam de Deus por causa do seu próprio sofrimento. Em alguns casos, aconteceu enquanto elas viam a chuva cair sobre a casa de outra mulher. Ao ver a casa desabar, a confiança delas no Senhor também desabou.

Tudo começou com a simpatia pela dor de alguém. Testemunhar o sofrimento de outra pessoa desencadeia uma resposta natural. Compaixão. Preocupação. Confusão. Todos esses sentimentos são genuínos, e nenhum deles é inerentemente pecaminoso. Você pensa:

  • Não acredito que isso esteja acontecendo com ela.
  • Que loucura tudo o que ela está passando
  • Parece cruel uma pessoa ter de suportar tanta coisa.

São reações normais, não são? Parecem apenas simples expressões dos nossos sentimentos. Mas e se você der um passo além? Elas podem acabar insinuando algo como:

  • Não acredito que isso esteja acontecendo . . .  porque isso não se encaixa nos limites do meu sistema de crenças e no Deus que eu pensava conhecer.
  • É loucura o que ela está passando agora . . . parece que Deus não tem controle dessa situação de verdade.
  • Parece cruel uma pessoa ter de suportar tanta coisa . . . se Deus permitiu isso, talvez Ele não seja tão bom quanto eu costumava acreditar.

A compaixão é uma resposta correta diante do sofrimento de alguém, mas quando você permite que a sua reação emocional a uma situação defina quem Deus é, a sua visão dele sempre será distorcida.

O antigo jogo

Nada disso é novidade. Satanás sempre soube que, se conseguir fazer com que você deixe de se firmar em alguns atributos centrais do caráter de Deus, o que resta  da sua fé acabará ruindo também. Pense em Gênesis 3:

Mas a serpente, mais astuta que todos os animais selvagens que o Senhor Deus tinha feito, disse à mulher: — É verdade que Deus disse: “Não comam do fruto de nenhuma árvore do jardim”?

A mulher respondeu à serpente: — Do fruto das árvores do jardim podemos comer, mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, Deus disse: “Vocês não devem comer dele, nem tocar nele, para que não venham a morrer.”

Então a serpente disse à mulher: — É certo que vocês não morrerão. (vv. 1–4

Satanás começou questionando o que Deus havia dito e a verdade sobre quem Ele é. Tudo o que a serpente precisava fazer era começar a mudar o que a mulher pensava sobre Deus, aos poucos. A serpente também sabia que, se Eva começasse a reescrever em sua própria mente o que sabia ser verdade, sem voltar à Fonte original, ela poderia conduzi-la para onde quisesse.

Ele usa a mesma tática quando você vê alguém sofrer. Ele sabe que, se conseguir fazer com que você continue a fazer perguntas, sem jamais levá-las ao Senhor, você deixará de se firmar na verdade com o mesmo afinco. Mas considere o impacto na sua fé se, em vez disso, você transformasse as suas observações, preocupações e perguntas em orações:

  • “Senhor, sinto que tudo o que estou vendo faz o Senhor parecer cruel. Está sendo difícil crer que o Senhor é realmente bom, especialmente com essas pessoas que estão no limite . . . mas a Tua Palavra diz que o Senhor não tem prazer em causar dor (Lm 3.32–33), que há um grande propósito em todo sofrimento e que Tu és compassivo e misericordioso (Tg 5.11). Senhor, ajuda-me a crer que Salmos 145.9 é verdadeiro mesmo agora. “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias permeiam todas as suas obras.”
  • “Senhor, sinto que esta situação é pesada demais e que o que ela está vivendo ultrapassa os limites do que o Senhor deveria ter permitido. . .  mas a Tua Palavra me lembra de que a minha perspectiva é muito limitada e de que eu mal posso compreender as bordas dos Seus caminhos (Jó 26.14Is 46.9–10). Tu traçastes limites para o mundo natural — colocastes “ferrolhos e portas”, declarando: “Até aqui você pode chegar, mas deste ponto não passará” (Jó 38.10–11). Não há dúvidas de que o Senhor também sabe exatamente o que ela está enfrentando, e nada pode entrar na vida dela sem o Teu conhecimento (Sl 139.1–6). Ajuda-me a crer que o Senhor está realizando algo maior do que aquilo que pode ser visto (1Co 4.16–18).”

A âncora da alma

Enquanto você viver em um mundo impactado pelo pecado e pelo sofrimento, sempre haverá momentos que vão desafiar a sua compreensão da bondade e da soberania de Deus. Cada um deles lhe dará a oportunidade de permitir que as suas observações e emoções comecem a redefinir a sua crença sobre quem Deus é ou de ancorar você ainda mais profundamente no Seu caráter imutável.

“Neste mundo vocês terão aflições”, disse Jesus (Jo 16.33 NVI). Quando isso acontecer, a resposta não é largar mão dos atributos de Deus. Quando a sua fé for desafiada pelo que você vê, agarre-se mais firmemente Àquele que é invisível. O seu coração vacilará, mas o amor e a soberania de Deus impedirão você de cair.

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Sobre o Autor

Katie Laitkep

Katie trabalhava como professora hospitalar quando Deus a chamou para se juntar ao Revive Our Hearts como escritora da equipe. Ela atua remotamente de Houston, Texas, onde Deus a sustenta por meio de praias de água salgada, das Escrituras e de sua igreja local.