Essas duas últimas semanas foram cheias de dias irritantes, dias interrompidos e dias que pareciam não ter fim. O meu humor foi de mal a pior — e quando os dias parecem descer ladeira abaixo, eu geralmente corro para coisas que acalmam a minha atitude rabugenta. Coisas como comida mexicana, um cantinho do sofá e uma noite de Netflix. Eu fujo. Agrado a minha cachorrinha para convencê-la a se aninhar do meu lado e deixo as tramas de séries engraçadas afastarem a minha mente das realidades decepcionantes.
A justificativa do “você teve um dia difícil” trabalha ao meu favor enquanto eu me entrego à minha ideia de paz perfeita: uma comidinha afetiva, cachorrinha fofa, série aconchegante. Lá no fundo, sei que mais tarde vou subir as escadas para dormir depois de ter passado horas desviando a minha mente das coisas que eu poderia ter enfrentado. De tarefas simples a metas de longo prazo, eu já evitei de tudo. As coisas ficam difíceis, e o meu desejo por conforto fala mais alto do que as necessidades diante de mim.
Esse é o problema de se fugir da realidade. Quando voltamos para a coisa que nos fez fugir, ela normalmente ainda está lá. Esperando, ainda sem resolução. Então, o meu dia foi ruim e eu deixei que ele terminasse num tom negativo — porque, embora a minha série tenha me feito rir, ela não preencheu os buracos do meu coração, não enfaixou as feridas doloridas e nem soprou esperança na minha alma. O consolo dela durou só um pouquinho, mas quando finalmente decidi parar de apertar o botão “Continuar assistindo”, vi as minhas frustrações todas de novo.
Porque o nosso coração não é curado das dores de um dia ruim através de diálogos espirituosos ou roteiros brilhantes, um carinho canino, o feed das redes sociais, chocolate amargo, xícaras enormes de café, longas sonecas, delivery, um bom choro ou a nossa melhor playlist. O escapismo sempre nos decepciona. Mas é a Palavra viva que oferece esperança, perspectiva e consolo (Jo 1.1–3; Sl 119.105). As palavras daquelas páginas talvez não mudem as minhas circunstâncias, mas certamente soam como uma chuva muito aguardada para uma alma ressequida (Sl 41.1–2). Deus nos fez assim. Para encontrar o que o nosso coração anseia dentro da Palavra, o próprio Jesus (Sl 119.81,174; Mt 4.4).
Escrevo isso com conhecimento intelectual — eu sei que Deus me deu a Sua Palavra para que eu possa conhecê-Lo, conectar-me com Ele, oferecer-Lhe as minhas orações, crescer nele e me tornar parecida com Ele (2Tm 3.16–17). Mas as minhas experiências contam outra história — o meu anseio por conforto me leva a um lugar fisicamente confortável, com entretenimento emocionalmente confortável, ignorando completamente o lugar do verdadeiro consolo espiritual, o poço infinito da verdade (Sl 119.50,71–72,111).
Meninas, digo isso porque quero que saibam que eu também enfrento dificuldades para recorrer à Palavra. Sabemos que ela é a resposta quando estamos lendo um blog ou conversando sobre devocionais no grupo de jovens. Mas quando os dias nos chutam, nos machucam e nos decepcionam, é mais fácil correr o mais rápido possível para a coisa mais reconfortante que conhecemos. É mais fácil fugir para a Netflix do que abrir a nossa Bíblia. Na hora, dizer adeus àquela situação insuportável enquanto abrimos o pacote de salgadinhos parece muito mais satisfatório. É mais fácil construir uma caverna com as nossas coisas favoritas do que lidar com a dor que arde na alma (Sl 119.107).
“Eu vou ler a minha Bíblia amanhã; agora só preciso relaxar e esquecer de tudo.” Eu entendo esse raciocínio. Já passei por isso muitas vezes e, se você também já, saiba que você está longe — muito longe — de ser a única que quer escapar. Mas a graça de Deus, que busca tanto você quanto eu, tem algo muito melhor para oferecer. Esperança genuína, descanso genuíno, cura genuína (Sl 119.47, 114, 156, 169–170).
Porém, não é fácil, porque significa olhar para a sujeira que está dentro do nosso próprio coração — e precisamos ver a feiura dele. Precisamos ver o egoísmo, o orgulho, a raiva ou a inveja que está causando a guerra dentro de nós. Ou o orgulho, a raiva e o egoísmo de alguém que nos feriu — coisas que somos chamadas a perdoar. A Palavra lança luz sobre tudo isso.
O nosso Deus está dedicado à missão de pegar coisas difíceis e moldá-las em coisas belas. Por isso Ele nos faz um convite: pare de fugir. Pare de recorrer a coisas temporárias como se pudessem oferecer algum consolo duradouro (Sl 119.37,103). E abra a sua Bíblia. Não por obrigação, culpa ou medo, mas com a consciência de que, naquelas páginas, você encontrará uma cura profunda, plena, difícil — mas que sempre vale a pena (Salmo 147:3–5; 119:28, 76–77). Está tudo lá. Porque Jesus está lá.
A esperança colocada na cafeína, nas maratonas de Netflix ou no chocolate sempre ficará infinitamente aquém de tudo o que Jesus nos oferece — e, se quisermos cultivar vidas vibrantes para a glória dele, vamos precisar do que, de fato, é bom e verdadeiro. Da esperança do Evangelho extraordinário revelado nas belas páginas das Escrituras.
Não, não é o caminho fácil; é o caminho do domínio próprio, de dizer “não” para a nossa carne e escolher Jesus. Também é o caminho da liberdade, da alegria. . . da vida. Talvez o seu dia tenha sido um horror. Pegue a sua Bíblia mesmo assim, e, se você não souber por onde começar, vá para o Salmo 119. Leia as palavras do salmista devagar e peça a Deus que torne as Suas palavras como um cobertor reconfortante ao redor da sua alma. Jesus é melhor do que a nossa rota de fuga. Sempre.
Clique aqui para ler o original em inglês.
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