Há duas palavrinhas que usamos em nossas conversas com tanta naturalidade que mal percebemos quantas vezes elas aparecem. Quando o seu marido sai de casa em meio a um temporal, quando o seu adolescente sai tarde da noite, quando alguém que você ama está prestes a se colocar em uma situação incerta ou perigosa, você diz quase automaticamente: cuidado.
O que você está dizendo à pessoa que ama é . . .
Eu me importo com você.
Estou preocupada com a sua segurança.
Não quero que você se machuque.
Moisés usa uma expressão semelhante mais de vinte vezes no livro de Deuteronômio. No contexto desta parte do Antigo Testamento, é tentador ler essa expressão como pouco mais do que uma severa advertência legislativa. Mas, embora Deuteronômio seja um livro da Lei, ele também é o discurso de despedida de Moisés a um povo que ele pastoreou durante quarenta anos. A sua advertência para que “tenham cuidado” não é uma ordem fria. É a linguagem de um pastor fiel — protetora, pastoral e fundada em amor — destinada a guardar a fé de Israel e, por meio da graça preservadora da Palavra de Deus, guardar a nossa também.
O preço de ignorar o chamado para “ter cuidado”
Todas nós já vimos o que acontece quando alguém não toma cuidado. Às vezes, as consequências são pequenas: um orgulho ferido, um pequeno reparo ou um momento levemente constrangedor. Outras vezes, porém, as repercussões são mais graves, causando danos irreparáveis, perda de confiança ou uma dor que poderia ter sido evitada.
Para Israel, as consequências foram profundas. Moisés não viveu para ver se o povo atenderia ou não às suas advertências, mas o restante das Escrituras revela os desdobramentos nas gerações seguintes.
Foi somente quando estudei Deuteronômio mais atentamente que percebi que o fracasso de Israel em lembrar-se das palavras deste livro específico e aplicá-las ajuda a explicar o que acontece ao longo do restante do Antigo Testamento. Enquanto lia a introdução a Deuteronômio no Comentário Bíblico Moody, fiquei impressionada com as conexões apresentadas. Veja o que estava escrito:
- “Deuteronômio explica o sucesso de Josué e o fracasso do período dos juízes. Para ter sucesso, Josué foi instruído (Js 1.8) a meditar e guardar “este Livro da Lei” (isto é, Deuteronômio). Josué praticou fielmente os ensinamentos deste livro, chegando até mesmo a realizar, no final de sua vida, uma cerimônia de renovação da aliança. . . Josué foi bem-sucedido porque conhecia e vivia de acordo com Deuteronômio. O completo oposto aconteceu no período dos juízes. Foi um período caótico, cheio de líderes falhos, quando “cada um fazia o que era certo aos seus próprios olhos” (Jz 21.25, NVI). Naquele período, Israel não estava fazendo o que era certo de acordo com “o Livro da Lei” e, por isso, fracassou.”¹
- “Deuteronômio explica o sucesso e o fracasso dos reis israelitas (Dt 17.14–20). Cada rei deveria escrever à mão a sua própria cópia do “Livro da Lei”. . . Dessa forma, não poderia fingir ignorância acerca dos mandamentos de Deus. É muito provável que o rei Davi tenha seguido essa instrução (Sl 1; 19; 119), enquanto o seu filho Salomão não o fez (compare Dt 17.16–17 com 1Rs 10–11). Jeroboão claramente violou os mandamentos de Deuteronômio em 1 Reis 12, e isso também aconteceu com outros reis perversos (1Rs 15.34; 16.26).”²
- “Deuteronômio explica a existência de muitos profetas nos séculos VIII a VI a.C. O declínio espiritual de Israel levou Deus, em Sua graça, a enviar profetas que, em essência, diziam: “Leiam e deem ouvidos a Deuteronômio”. . . Todos os profetas, especialmente Oseias, Jeremias e Daniel — todos pulsam com o mesmo coração de Deuteronômio.”³
- Deuteronômio explica o motivo do exílio babilônico (Dt 28.36): “O Senhor levará vocês e o rei que tiverem constituído sobre vocês a uma nação que não conheceram, nem vocês, nem os seus pais; e lá servirão outros deuses, feitos de madeira e de pedra.” Em resumo, o exílio de 586 a.C. aconteceu porque ninguém deu ouvidos a Deuteronômio.”4
Depois que Moisés convocou todo o Israel e lhes transmitiu os Dez Mandamentos, o povo respondeu: “Nós ouviremos e obedeceremos” (Dt 5.27, NVI). O Senhor disse a Moisés:
“Eu ouvi as palavras que este povo lhe falou, e em tudo eles falaram muito bem. Quem dera que eles sempre tivessem tal coração, e sempre me temessem e guardassem todos os meus mandamentos! Assim tudo iria bem para eles e para os filhos deles, para sempre!” (Deuteronômio 5.28–29)
Os mandamentos do Senhor não tinham como objetivo impedir que o povo experimentasse uma vida plena e frutífera, mas, sim, assegurá-la. Moisés lembrou ao povo: “Tenham o cuidado de fazer como o Senhor, seu Deus, lhes ordenou. Não se desviem, nem para a direita nem para a esquerda. Andem em todo o caminho que o Senhor, seu Deus, lhes ordenou, para que vocês vivam” (Dt 5.32–33). A vida seria encontrada em uma lealdade absoluta a Ele.
Amor que molda uma vida
Quando perguntaram a Jesus: “Qual é o maior mandamento da Lei?”, Ele citou Deuteronômio: “Ame o Senhor, seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força” (Dt 6.5). Imagine como a história de Israel teria sido diferente se o povo tivesse dado ouvidos a essas palavras.
Amar o Senhor significa escolhê-Lo para um relacionamento íntimo e obedecer aos Seus mandamentos. Esse mandamento de amá-Lo é repetido muitas vezes em Deuteronômio (5; 7.9; 10.12; 11.1, 13, 22; 13.3; 19.9; 30.6, 16, 20). Deus deveria ser amado de todo o coração e esse amor deveria permear todos os aspectos do ser e da vida de um israelita (a sua alma e a sua força).⁵
Como eles deveriam fazer isso na prática? Deuteronômio 6 continua: “Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração” (v. 6). As palavras às quais ele se referia eram todos os mandamentos da aliança que Moisés havia comunicado. Para o público hebreu, “coração” referia-se mais à mente e ao intelecto.⁶ Os israelitas deveriam meditar nas palavras de Deus, memorizando-as, refletindo sobre elas e lembrando-se do que Ele havia dito.
As palavras de Deus não deveriam ser gravadas apenas no pensamento deles, mas também no pensamento dos seus filhos. “A imagem é a de um artesão que toma em suas mãos o martelo e o cinzel e, com cuidado meticuloso, grava um texto na superfície de uma sólida placa de granito.”⁷
Moisés disse aos israelitas: “Você as inculcará a seus filhos, e delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se” (Dt 6.7). Eles deveriam cultivar a repetição constante e as conversas contínuas: em casa e pelo caminho, em todas as situações, durante todo o dia, para que a verdade da aliança fosse o foco central de sua vida, reorientando cada momento.
Foi-lhes ordenado que atassem essas palavras às mãos e as colocassem como símbolo na testa (Dt 6.8). Mais tarde, o judaísmo passou a interpretar esses mandamentos literalmente (Mt 23.5). Figurativamente, o mandamento “designa que as instruções de Deus deveriam servir como lembretes constantes para orientar todas as suas ações (isso era representado pela ‘mão’), bem como a maneira como viam o mundo (isso era representado pela ‘testa’)”.⁸ Eles deveriam seguir as leis de Deus em casa (“nos umbrais de sua casa”) e na comunidade (“nos portões da sua cidade”).
“Escute, Israel”, disse Moisés ao povo, “e tenha o cuidado de cumprir esses mandamentos” — os estatutos e as ordenanças — do Senhor. Já olhamos adiante para ver algumas das formas pelas quais o futuro da nação foi afetado quando o povo não deu ouvidos às palavras de Deus. Eles não foram parar na Babilônia da noite para o dia. O desvio começou muito antes disso.
“Estas palavras estarão no seu coração”
E quanto a nós? O que acontece quando o Senhor diz: “Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração” (Dt 6.6), mas você não as grava ali?
- Quando a Sua Palavra não está no seu coração, quando você não medita ativamente nela, começa a se esquecer. Você ainda conhece as histórias, mas o seu amor pelo Senhor vai se enfraquecendo. Como você pode adorar o Senhor de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força se Ele nunca está nos seus pensamentos?
- Quando a Sua Palavra não está na sua mão, a sua obediência se torna seletiva. Você pode continuar dizendo que ama a Deus, mas as suas escolhas diárias já não são intencionalmente moldadas pelo que Ele disse. Um amor que nunca chega às suas ações — e que não é expresso por meio da obediência — não é amor. É sentimento sem rendição.
- Quando a Sua Palavra não está na sua testa, a sua perspectiva muda. Se as Escrituras não estão definindo a maneira como você vê o mundo, você começará a tomar decisões com base na opinião dos outros, no medo e na comparação, em emoções passageiras, nas redes sociais, nas suas inseguranças pessoais e em feridas ou hábitos antigos. Você passa a interpretar o sucesso, o sofrimento, os relacionamentos e o propósito da sua vida por meio de uma perspectiva que coloca você, e não Jesus, no centro.
- Quando a Sua Palavra não está nos umbrais da sua casa, o ritmo da vida passa a determinar o que importa, e outras prioridades passam a discipular a sua família. Você terá dificuldade para transmitir o amor de Deus àqueles que vivem em sua casa se a Palavra de Deus for raramente falada entre as quatro paredes de sua casa.
- Quando a Sua Palavra não está nas suas portas, a sua fé permanece privada. Você cede à tentação de suavizar as suas convicções, ajustar a sua linguagem e evitar chamar a atenção. Quando as Escrituras não estão governando a sua vida pública, a sua lealdade não fica clara, e o mundo não consegue perceber a quem você pertence.
“Tenha o cuidado”, adverte Deuteronômio, não para condená-la, mas porque existe um caminho melhor.“Tenha o cuidado”, adverte Deuteronômio, não para condená-la, mas porque existe um caminho melhor. Um amor mais profundo. Uma vida mais plena. Um legado duradouro. Moisés não estava apenas advertindo os israelitas sobre aquilo que poderiam perder — estava convidando-os, e convidando a nós também, a guardar aquilo que é mais precioso.
Somente Jesus amou o Pai de todo o Seu coração, de toda a Sua alma e com toda a Sua força. Enquanto Israel falhou em ler e dar ouvidos à Palavra de Deus, Jesus conhecia cada linha e a obedeceu sem vacilar — o Rei perfeito (Dt 17.18–20). Enquanto nós nos desviamos dos caminhos de Deus, Jesus não se desviou nem para a direita nem para a esquerda. E agora, por causa da Sua misericórdia e graça, a Palavra que antes estava escrita em pedra foi escrita em nosso coração.
Portanto, tenha cuidado — não por medo de perder o amor de Deus, mas porque você já o tem. Guarde a Sua verdade como um tesouro, ande nos Seus caminhos e permita que a Palavra que Ele deu a você esteja sempre no seu coração.
Clique aqui para o original em inglês.
1 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 264.
2 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 264.
3 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 264.
4 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 264.
5 DEERE, Jack S. Deuteronomy. In: WALVOORD, J. F.; ZUCK, R. B. (eds.). The Bible Knowledge Commentary: An Exposition of the Scriptures. v. 1. Wheaton, IL: Victor Books, 1985. p. 274.
6 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 278.
7 MERRILL, Eugene H. Deuteronomy. v. 4. The New American Commentary. Nashville: Broadman & Holman Publishers, 1994. p. 167.
8 RYDELNIK, Michael; VANLANINGHAM, Michael (eds.). The Moody Bible Commentary. Chicago: Moody Publishers, 2014. p. 278.